CAPÍTULO 54
NATUREZA E GRAÇA
A IMITAÇÃO DE CRISTO – THOMAS À KEMPIS
Meu filho, observe diligentemente os movimento da natureza
humana e da graça divina. Pois elas se movem de modo contrário e sutil, e
dificilmente são diferençadas, a não ser por aquele que é espiritual e
iluminado em seu interior. Todos os homens, realmente, desejam aquilo que é
bom, e pretendem algo bom nas palavras e ações deles, e por isso, sob a
aparência do bem, muitos são enganados.
A natureza detesta morrer ou ser reprimida, ou ser vencida ou
sujeita ou prontamente abrandada. Mas a graça considera mortificar-se, resiste
à sensualidade, busca estar em sujeição, anela ser derrotada, não tem desejo de
usar sua própria liberdade. Ama ser conservada sob disciplina, e não deseja
estar em autoridade sobre ninguém, e sim viver, colocar-se e estar sob Deus, e,
por sua causa, estar pronto, humildemente, “a sujeitar-se a toda autoridade
constituída” (1 Pedro 2.13).
A natureza se empenha por sua própria vantagem, e considera
que proveito pode tirar em cima de outrem. A graça considera não o que é
proveitoso e útil para si, e sim o que pode resultar no bem de muitos (1
Coríntios 10.33).
A natureza recebe, de bom grado, a honra e reverência, mas a
graça fielmente atribui toda honra e glória a Deus.
A natureza teme a vergonha e humilhação, mas a graça se
regozija em sofrer vexame pelo nome dele (Atos 5.41).
A natureza ama o lazer e descanso corporal; a graça não sabe
ficar desempregada e se atira ao trabalho, com alegria.
A natureza busca ter as coisas que são curiosas e belas, e
detesta aquelas que são baratas e grosseiras. Mas a graça se deleita naquilo
que é simples e humilde, não despreza as coisas grosseiras, nem recusa ser
vestida daquilo que é velho e remendado.
A natureza respeita as coisas temporais, alegra-se com os
lucros terrenos, se entristece por perdas, irrita-se por qualquer palavrinha de
pouco caso. Mas a graça olha para as coisas eternas, não se apega às temporais
(2 Coríntios 4.18), não se perturba com revezes, nem se azeda com palavras
duras, porque colocou seu tesouro e alegria no Céu (Mateus 6.20), onde nada
perece.
A natureza é cobiçosa, está mais pronta a receber do que dar,
e ama ter coisas pessoais que lhe pertençam. Mas a graça é bondosa, tem mão
aberta, evita o interesse no particular, contenta-se com poucas coisas, julga
que “há maior felicidade em dar do que em receber” (Atos 20.35).
A natureza inclina o homem às criaturas, a sua própria carne,
a vaidades, a andanças. Mas a graça atrai a Deus e às virtudes, renuncia as
criaturas, evita o mundo, detesta os desejos da carne, refreia as andanças,
cora de vergonha de ser vista em público.
A natureza está disposta a ter algum consolo exterior, no
qual possa deleitar os sentidos. Mas a graça busca consolo apenas em Deus, e o
ter deleite no bem superior, acima de todas as coisas visíveis.
A natureza consegue tudo para seu próprio ganho e proveito.
Nada pode fazer sem ser paga, pois, pela bondade, espera obter algo de igual
valor ou algo melhor, ou pelos menos louvor ou favor, e ter bem valorizadas
suas ações, dádivas e palavras. Mas a graça não busca coisas temporais, nem
deseja outra recompensa por paga, além de Deus somente, nem pede mais
necessidades temporais, exceto enquanto lhe sirvam para a obtenção de coisas
eternas.
A natureza se alegra em ter muitos amigos e parentes.
Gloria-se em locais nobres e nascimento nobre, sorri para os poderosos, adula
os ricos, aplaude aqueles que lhe são semelhantes. Mas a graça ama até
inimigos, e não se vangloria com multidão de amigos; nem considera importante o
lugar ou a família nobre de onde vem a pessoa, a não ser que haja maior
virtude. Favorece os pobres mais que os ricos, tem maior simpatia pelos
inocentes do que pelos poderosos, alegra-se com o homem verdadeiro, não o
fingido. Está sempre exortando os bons a “buscar com dedicação os melhores
dons” (1 Coríntios 12.31), e pelas virtudes tornar-se como o Filho de Deus.
A natureza logo reclama de carência e dificuldades; a graça
suporta a necessidade com constância.
A natureza faz tudo retornar a si, lutando e argumentando a
seu próprio favor. Mas a graça retorna tudo a Deus, de quem originalmente
fluiu. Não atribui bem nenhum a si, nem presume com arrogância; não briga, não
prefere sua própria opinião acima de outras. Mas em todo assunto de razão e
entendimento, submete-se à sabedoria eterna e ao juízo divino.
A natureza se apressa para saber segredos e ouvir novidades;
ela gosta de aparecer e verificar muitas coisas com seus próprios sentidos.
Deseja ser reconhecida e fazer coisas pelas quais poderá ser elogiada e
admirada. Mas a graça não cuida de ouvir novidades ou assuntos curiosos, porque
tudo isso surge da velha corrupção do homem; visto que sobre a terra nada
existe que seja novo, nada durável. A graça ensina, pois, a reprimir os
sentidos, a aborrecer vã autogratificação e ostentação, a esconder humildemente
aquelas coisas que valem ser admiradas e elogiadas, e de todo assunto e todo
conhecimento buscar fruto proveitoso, e o louvor e honra de Deus. Não quer que
ele mesmo seja aclamado publicamente, e sim deseja que, em suas dádivas, seja
bendito Deus, que, por mero amor, concede todas as coisas.
Esta graça é uma luz sobrenatural, e um dom especial de Deus,
e o sinal apropriado dos eleitos, e o penhor da salvação sempiterna. Ela ergue
o homem das coisas terrenas ao amor das coisas do Céu, e o ser carnal ela torna
um homem espiritual.
Assim, quanto mais a natureza for reprimida e subjugada,
tanto maior graça e derramada na pessoa. E, cada dia, com novas visitações, o homem
interior vai se transformando, segundo a imagem de Deus.

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