20 novembro 2014

Natureza e Graça

CAPÍTULO 54

NATUREZA E GRAÇA

A IMITAÇÃO DE CRISTO – THOMAS À KEMPIS




   Meu filho, observe diligentemente os movimento da natureza humana e da graça divina. Pois elas se movem de modo contrário e sutil, e dificilmente são diferençadas, a não ser por aquele que é espiritual e iluminado em seu interior. Todos os homens, realmente, desejam aquilo que é bom, e pretendem algo bom nas palavras e ações deles, e por isso, sob a aparência do bem, muitos são enganados.

  A natureza é astuta e faz com que muitos desistam; prende-os, engana-os, sempre com o eu, por alvo. Mas a graça caminha em simplicidade, abstém-se de toda aparência do mal, não se abriga debaixo de enganos, faz todas as coisas puramente, por amor a Deus, em quem repousa finalmente.


   A natureza detesta morrer ou ser reprimida, ou ser vencida ou sujeita ou prontamente abrandada. Mas a graça considera mortificar-se, resiste à sensualidade, busca estar em sujeição, anela ser derrotada, não tem desejo de usar sua própria liberdade. Ama ser conservada sob disciplina, e não deseja estar em autoridade sobre ninguém, e sim viver, colocar-se e estar sob Deus, e, por sua causa, estar pronto, humildemente, “a sujeitar-se a toda autoridade constituída” (1 Pedro 2.13).


   A natureza se empenha por sua própria vantagem, e considera que proveito pode tirar em cima de outrem. A graça considera não o que é proveitoso e útil para si, e sim o que pode resultar no bem de muitos (1 Coríntios 10.33).


  A natureza recebe, de bom grado, a honra e reverência, mas a graça fielmente atribui toda honra e glória a Deus.


   A natureza teme a vergonha e humilhação, mas a graça se regozija em sofrer vexame pelo nome dele (Atos 5.41).


  A natureza ama o lazer e descanso corporal; a graça não sabe ficar desempregada e se atira ao trabalho, com alegria.


  A natureza busca ter as coisas que são curiosas e belas, e detesta aquelas que são baratas e grosseiras. Mas a graça se deleita naquilo que é simples e humilde, não despreza as coisas grosseiras, nem recusa ser vestida daquilo que é velho e remendado.


  A natureza respeita as coisas temporais, alegra-se com os lucros terrenos, se entristece por perdas, irrita-se por qualquer palavrinha de pouco caso. Mas a graça olha para as coisas eternas, não se apega às temporais (2 Coríntios 4.18), não se perturba com revezes, nem se azeda com palavras duras, porque colocou seu tesouro e alegria no Céu (Mateus 6.20), onde nada perece.


  A natureza é cobiçosa, está mais pronta a receber do que dar, e ama ter coisas pessoais que lhe pertençam. Mas a graça é bondosa, tem mão aberta, evita o interesse no particular, contenta-se com poucas coisas, julga que “há maior felicidade em dar do que em receber” (Atos 20.35).


  A natureza inclina o homem às criaturas, a sua própria carne, a vaidades, a andanças. Mas a graça atrai a Deus e às virtudes, renuncia as criaturas, evita o mundo, detesta os desejos da carne, refreia as andanças, cora de vergonha de ser vista em público.


  A natureza está disposta a ter algum consolo exterior, no qual possa deleitar os sentidos. Mas a graça busca consolo apenas em Deus, e o ter deleite no bem superior, acima de todas as coisas visíveis.


  A natureza consegue tudo para seu próprio ganho e proveito. Nada pode fazer sem ser paga, pois, pela bondade, espera obter algo de igual valor ou algo melhor, ou pelos menos louvor ou favor, e ter bem valorizadas suas ações, dádivas e palavras. Mas a graça não busca coisas temporais, nem deseja outra recompensa por paga, além de Deus somente, nem pede mais necessidades temporais, exceto enquanto lhe sirvam para a obtenção de coisas eternas.


  A natureza se alegra em ter muitos amigos e parentes. Gloria-se em locais nobres e nascimento nobre, sorri para os poderosos, adula os ricos, aplaude aqueles que lhe são semelhantes. Mas a graça ama até inimigos, e não se vangloria com multidão de amigos; nem considera importante o lugar ou a família nobre de onde vem a pessoa, a não ser que haja maior virtude. Favorece os pobres mais que os ricos, tem maior simpatia pelos inocentes do que pelos poderosos, alegra-se com o homem verdadeiro, não o fingido. Está sempre exortando os bons a “buscar com dedicação os melhores dons” (1 Coríntios 12.31), e pelas virtudes tornar-se como o Filho de Deus.


  A natureza logo reclama de carência e dificuldades; a graça suporta a necessidade com constância.


  A natureza faz tudo retornar a si, lutando e argumentando a seu próprio favor. Mas a graça retorna tudo a Deus, de quem originalmente fluiu. Não atribui bem nenhum a si, nem presume com arrogância; não briga, não prefere sua própria opinião acima de outras. Mas em todo assunto de razão e entendimento, submete-se à sabedoria eterna e ao juízo divino.


  A natureza se apressa para saber segredos e ouvir novidades; ela gosta de aparecer e verificar muitas coisas com seus próprios sentidos. Deseja ser reconhecida e fazer coisas pelas quais poderá ser elogiada e admirada. Mas a graça não cuida de ouvir novidades ou assuntos curiosos, porque tudo isso surge da velha corrupção do homem; visto que sobre a terra nada existe que seja novo, nada durável. A graça ensina, pois, a reprimir os sentidos, a aborrecer vã autogratificação e ostentação, a esconder humildemente aquelas coisas que valem ser admiradas e elogiadas, e de todo assunto e todo conhecimento buscar fruto proveitoso, e o louvor e honra de Deus. Não quer que ele mesmo seja aclamado publicamente, e sim deseja que, em suas dádivas, seja bendito Deus, que, por mero amor, concede todas as coisas.


  Esta graça é uma luz sobrenatural, e um dom especial de Deus, e o sinal apropriado dos eleitos, e o penhor da salvação sempiterna. Ela ergue o homem das coisas terrenas ao amor das coisas do Céu, e o ser carnal ela torna um homem espiritual. 


  Assim, quanto mais a natureza for reprimida e subjugada, tanto maior graça e derramada na pessoa. E, cada dia, com novas visitações, o homem interior vai se transformando, segundo a imagem de Deus.
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